Em pronunciamento em cadeia nacional nesta quarta-feira, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, acusou os críticos internacionais de "hipocrisia", chamou o comboio de navios turcos que ia para Gaza de "ação terrorista" e reafirmou a "necessidade" do bloqueio à faixa de Gaza para proteger tanto Israel quanto a Europa.
A declaração foi feita em meio à crescente pressão internacional pelo fim do bloqueio a Gaza, com pedidos vindos do secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon, dos países da Liga Árabe, do governo britânico e de Tony Blair, enviado do Quarteto para o Oriente Médio (EUA, Rússia, ONU e União Europeia).
| Amir Cohen/Reuters |
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| Cadeirinha de bebê que estava a bordo do navio com ajuda humanitária para Gaza |
Gaza está sob bloqueio de Israel e do Egito desde que o grupo militante islâmico Hamas tomou o poder, em 2007. Israel recusa acusações de que o local esteja passando por uma crise humanitária e alega permitir a entrada de comida, remédios e suprimentos o suficente no território.
Na madrugada de segunda-feira (31), cerca de 700 ativistas tentaram furar o bloqueio imposto por Israel a Gaza para levar cerca de 10 mil toneladas de ajuda humanitária quando foram atacados por militares israelenses em águas internacionais. Pelo menos nove ativistas foram mortos na operação.
O governo de Israel disse que as tropas israelenses agiram em defesa própria no episódio, depois de serem atacadas. Por meio de uma nota, divulgada pelo governo israelense, o ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, disse que as pessoas a bordo do navio invadido não estavam em missão de paz e são terroristas.
Netanyahu
"Israel está enfrentando um ataque de hipocrisia internacional", disse Netanyahu em um comunicado gravado em seu gabinete e transmitido em cadeia nacional nesta quarta-feira. Ele disse que a flotilha estava tentando furar o bloqueio, e não levar ajuda a Gaza.
| Jim Hollander/Efe |
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| Premiê israelense faz pronunciamento de seu gabinete, acusando comunidade internacional de "hipocrisia" |
"Se o bloqueio tivesse sido furado, teria sido seguido por dezenas, centenas de barcos", disse. "Cada barco poderia carregar dezenas de mísseis."
Ele afirmou que o Hamas --grupo radical islâmico que tomou o controle da faixa de Gaza em 2007, levando ao bloqueio por parte de Israel-- "continua se armando e que o Irã continua transferindo armas ao Hamas, especialmente foguetes e mísseis".
"Não era um cruzeiro de amor, era um cruzeiro de ódio. Não era uma operação pacífica, era uma operação terrorista."
As declarações foram feitas horas depois de os ativistas pró-palestinos detidos nos navios terem sido mandados para o aeroporto de Ben-Gurion, perto de Tel Aviv, para serem deportados.
ONU
O bloqueio de Israel a Gaza deve ser "levantado imediatamente", defendeu novamente nesta quarta-feira o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon. Esse bloqueio é "contraproducente, insustentável e imoral". "Deve ser suspenso imediatamente", advertiu.
Na sede da ONU em Nova York, Ban manteve uma série de reuniões individuais com embaixadores de Israel, Turquia, nações árabes e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU para discutir como implementar o pedido de "uma investigação imediata, imparcial, crível e transparentes segundo padrões internacionais".
Ban disse que uma investigação deve lidar com todos os aspectos do incidente --não só as violações legais. Ele alertou que pode ser preciso esperar um pouco até que ele "tome uma decisão".
Ele explicou que devem haver "denominadores comuns, entendimentos comuns entre as partes envolvidas" na investigação e no momento "as visões são diferentes".
"Então, eu tenho que refinar alguns elementos que podem atrair apoio de todas as partes envolvidas, incluindo o governo israelense", disse Ban.
Liga Árabe
A Liga Árabe decidiu nesta quarta-feira, em reunião extraordinária de quase cinco horas, recorrer ao Conselho de Segurança da ONU para obrigar Israel a por fim ao bloqueio à faixa de Gaza, informaram fontes oficiais à agência Efe.
Em entrevista coletiva ao final da reunião, o secretário-geral da Liga Árabe, Amro Musa, disse que caberá ao Líbano fazer o pedido ao Conselho da ONU.
Na reunião, a Síria buscava apoio dos países árabes à sua proposta de suspender as negociações indiretas entre palestinos e israelenses, com mediação dos EUA, mas a iniciativa não foi aprovada.
Investigação
O Conselho de Direitos Humanos da ONU classificou o ataque de Israel como "ultrajante" e votou uma proposta de missão independente para investigar o que chamou de violações das leis internacionais por Israel no ataque de segunda-feira. A proposta, feita pelos países islâmicos, foi aprovada por 32 votos a favor, nove abstenções e três "não, vindos dos EUA, Itália e Holanda.
A resolução pede uma investigação completa e independente.
| Arte/Folha |
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Segundo diplomatas, a maioria dos países apoiaria uma investigação independente internacional, provavelmente comandada pela ONU, mas Washington, assim como Israel, se opõe.
Israel se recusou a cooperar com uma investigação anterior do Conselho de Direitos Humanos liderada por um sul africano sobre a guerra na faixa de Gaza. O governo desmentiu o relatório final, que acusou Israel e o Hamas de crimes de guerra, de ser tendencioso e falso.
A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, disse ontem que Washington apoiaria uma investigação israelense, mas estaria aberto a diferentes formas de garantir que fosse confiável.
Rússia e China, bem como vários países da África e América Latina apoiaram a resolução, mas França, Bélgica, Reino Unido, Hungria, Japão, Eslováquia, Ucrânia e Coreia do Sul se abstiveram.
Tony Blair
O enviado do chamado Quarteto para o Oriente Médio (EUA, Rússia, ONU e União Europeia), Tony Blair, pediu nesta quarta-feira que Israel encerre o embargo à faixa de Gaza, dizendo que ele é "contraproducente".
"O que [Israel] deveria estar fazendo é permitir [a entrada] de materiais para reconstruir casas e sistemas de saneamento, energia e água e permitir que os negócios floresçam", disse o ex-premiê britânico (1997-2007) à agência de notícias Reuters.
Segundo ele, o embargo não está ajudando Israel a recuperar um soldado mantido refém pelo movimento islâmico Hamas, que controla a faixa de Gaza, desde 2006. "Nem nós, de fato, causamos danos à posição do Hamas por prejudicar pessoas em Gaza."
"A população é prejudicada quando a qualidade do serviço é ruim e as pessoas não podem trabalhar", afirmou Blair.
Reino Unido
"Devemos fazer todo o possível através das Nações Unidas; a resolução 1860 é absolutamente clara sobre a necessidade de pôr fim ao bloqueio e de abrir Gaza", declarou o novo premiê britânico, David Cameron, durante a primeira sabatina a que foi submetido na Câmara dos Comuns depois de sua chegada ao poder em maio.
A resolução 1860 foi adotada em janeiro de 2009, alguns dias após o início de uma ofensiva israelense em Gaza, que deixou mais de 1.400 mortos entre os palestinos e 13 do lado israelense.
"Os amigos de Israel -- e eu próprio me considero um amigo de Israel -- deveriam dizer aos israelenses que o bloqueio, na realidade, reforça o controle do Hamas sobre a economia e sobre Gaza, e que é de seu próprio interesse retirá-lo, permitindo a passagem de produtos essenciais", acrescentou.