Colaboração para a Folha
O Pentágono afirmou nesta quinta-feira que o grupo militante paquistanês Taleban não é mais comandado por Hakimullah Mehsud, que oficiais de inteligência do Paquistão agora acreditam que tenha sobrevivido a um ataque de míssil da CIA (agência de inteligência americana), perto da fronteira com o Afeganistão.
O Paquistão tinha anunciado a morte de Mehsud em janeiro deste ano, mas hoje agentes da inteligência do país disseram que ele está vivo. O Taleban sempre manteve a afirmação de que Mehsud estava vivo e classificou o anúncio de morte como mentira.
"Eu certamente não tenho nenhuma evidência que a pessoa de quem você está falando [Mehsud] está operando hoje ou executando ou exercendo autoridade sobre o Taleban no Paquistão como fez um dia. Então eu não sei se isso significa que está vivo ou morto, mas ele claramente não está mais liderando o Taleban no Paquistão", disse o secretário de imprensa do Pentágono, Geoff Morrell, em entrevista coletiva.
O anúncio de que Mehsud sobreviveu ao ataque levanta questões sobre a qualidade da inteligência sendo usada na região.
Se confirmada, a notícia também será um golpe para a CIA, que intensificara os bombardeios a redutos do Taleban depois que Mehsud apareceu, no começo de janeiro, num vídeo com um agente duplo jordaniano --que matou sete empregados da CIA em um atentado suicida no leste do Afeganistão, em 30 de dezembro.
Um alto oficial paquistanês também afirmou que Mehsud não era o mais poderoso do movimento Taleban, que executou vários ataques no Paquistão recentemente e se aliou à rede terrorista Al Qaeda e militantes no Afeganistão na luta contra soldados dos EUA e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Segundo esse oficial, outros líderes do Taleban, como Waliu Rehman, estariam mais fortes no grupo.
O grupo militante se recusou a oferecer qualquer tipo de evidência, como um vídeo, porque poderia ajudar na captura de Mehsud por forças de segurança.
O Taleban do Paquistão é conhecido por negar a morte de líderes militantes mesmo quando é verdade. Eles esperaram cerca de três semanas para confirmar que o antecessor de Mehsud, Baitullah Mehsud, tinha sido morto em agosto, enquanto negociavam quem iria sucedê-lo.
Se estiver vivo, não será a primeira vez que Mehsud, que acredita-se que esteja em seus 20 anos, terá desafiado anúncios de sua morte. Após a morte de seu antecessor, o ministro do Interior foi um dos que afirmou que Mehsud tinha sido morto em um ataque. Mas o militante se encontrou com jornalistas semanas depois e comandou uma série de ataques a bombas pelo país, deixando mais de 600 mortos nos três últimos meses de 2009.
Versões
Quatro oficiais de inteligência da principal agência de espionagem do Paquistão acreditam que Mehsud esteja vivo. Em condição de anonimato, eles citaram pesquisa eletrônica e relatórios de fontes no local, incluindo de dentro do Taleban. Um deles disse que Mehsud teria se ferido no ataque, mas se recuperou completamente.
O ministro paquistanês do Interior, Rehman Malik, disse em fevereiro passado que possuía "informações críveis" sobre a morte de Mehsud.
"Esta confusão favorece o Taleban, pois constrange o governo", disse Rahimullah Yusufzai, especialista em assuntos tribais e do Taleban. "Mostra que há uma falta de inteligência real e que ainda há áreas que não estão sob controle do governo."
Sete dias antes, um alto oficial de inteligência dos EUA disse, em condição de anonimato, que a melhor informação organizada das agências de inteligência americanas era de que o militante estava morto.
Fontes do Taleban também apresentaram versões conflitantes sobre o que ocorreu com Mehsud. Em fevereiro, um deles disse que o líder havia morrido ao ser transportado para Karachi, depois do bombardeio.
O principal porta-voz do Taleban, Azam Tariq, desmentiu a informação. Ele afirmou que Mehsud sobreviveu ao ataque, mas se mantém escondido para evitar um novo atentado.
Yusufzai confirmou a hipótese de que Mehsud pode estar preferindo a discrição para não ser atacado outra vez. Ele argumentou, contudo, que ele já não tem grande poder no país, após uma disputa de poder entre vários membros de alto escalão do Taleban.
Estratégia
Independentemente do destino de Mehsud, no entanto, analistas não preveem mudanças nas ações do Taleban, que luta para derrubar o governo paquistanês, apoiado pelos EUA.
Também não deve mudar o modo como o Paquistão vem tentando combater os militantes no nordeste do país. A campanha, que começou fortemente há pouco mais de dois anos, após forte pressão dos EUA, é amplamente apoiada pelo povo e pelos políticos paquistaneses.
Os EUA ampliaram fortemente seu programa de ataques com mísseis no noroeste do Paquistão nos últimos 20 meses. Somente este ano, acredita-se que foram feitos mais de 30 ataques do tipo. Oficiais americano só falam sobre o programa com a condição de anonimato.
O Taleban sofreu importantes baixas no último ano, em meio às ofensivas militares paquistanesa contra seus redutos, inclusive na região do Waziristão do Sul, onde ocorreu o ataque da CIA. As incursões do Paquistão mataram centenas de militantes e destruíram bases do Taleban na fronteira.

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